terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Anomalias: as mensagens de Natal já não são o que eram...

Há vários dias que ando preocupada com esta coisa da responsabilidade: é disso que me acusam; ela é responsável...demais. Responsável demais. Nunca acreditei que pudesse ser acusada deste crime, não porque não o cometa, simplesmente porque para mim, responsabilidade não era sinónimo de delito. Depois de meditar arduamente acerca desta temática percebi que tenho um lugar no banco dos réus: a responsabilidade tem aniquilado muitas coisas que poderiam acontecer se a preocupação em cumprir regras não fosse tanta. E pouco a pouco, vou percebendo que soltar um bocadinho as amarras só me fará bem, e até posso recusar cafés e tudo. Posso dizer que hoje não é o dia, e que amanhã continuarei sem vontade de sair do ninho que é a minha casa. Posso sempre inventar desculpas estapafúrdias como pequenas gripes para poder ficar mais duas horas na cama. E não tenho de me sentir culpada por não frequentar a única cadeira teórica que tenho este ano. Fiz sempre tudo certinho, foi sempre tudo muito perfeitinho: as prendas para os amigos, a letra, a roupa. As coisas comigo são impecáveis. E hoje sinto que preciso de me sujar: preciso de pôr as mãos na terra e ficar com as unhas castanhas, preciso de chegar amarrotada a uma festa ou dizer disparates aos amigos que conheço há anos. Preciso desesperadamente de cometer erros, chocar contra os objectos que estão no mesmo sítio desde que me lembro deles, ficar com nódoas negras tremendas nos sítios todos do corpo. Preciso de dizer as coisas que geralmente não digo e ficar aliviada. Preciso de preparar discursos muito estruturados no comboio para dizer a alguém e que os planos me saíam furados assim que abro a boca. Preciso de ficar a dançar sem dizer nada a nínguem. Planeio fugir durante uns dias e omitir a minha fuga: vou encontrar uma casa com lareira no meio das árvores e por lá ficarei enleada em prendas de natal e papéis para rabiscar as tristezas. Os últimos meses têm sido uma aventura, trabalho demais, durmo de menos. Confundo as coisas simples. Tenho-me sentido em estado de alerta, coberta de preocupação e responsabilidade. Hoje, sem mais nem menos, sinto-me mais levezinha e parece que posso voltar a arrumar o quarto que ficou caótico durante tanto tempo. Desconheço a forma como reorganizarei os objectos, tenho menos livros na prateleira e isso não me incomoda porque sei que estão em boas mãos. E sei que vou voltar a encontrar a minha casa, o meu porto, exactamente como o deixei há seis meses atrás. Sinto-me pronta e com algum egoísmo, não me apetece paz, nem nada dessas coisas natalícias. Para mim e para aqueles que me são queridos, só quero que possam arrumar as coisas no sítio onde pertencem. Quero que depois das grandes ventanias chegue a hora em que tudo se compõem, em que nos reconhecemos como antes. Quero que possamos encontrar aquela juventude inocente em que éramos felizes e despreocupados. Quero ter quinze anos tendo vinte. Quero beijinhos e depois beijos. Quero saber o caminho para casa. Desejo intimamente que saibam o vosso ou que o descubram. Eu tenho tudo dessarumado há demasiado tempo. Começam hoje as arrumações.

Feliz Natal

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Fiasco apresenta: Silêncio pós-secador

Não há nada de infértil neste nossa tentativa. Parece-me que demos à luz uma criança saudável. Acredito no fiasco que são as nossas incursões na criação e comove-me pensar que em poucas horas construímos um universo íntimo e poderoso. Ergo o meu copo de vinho estacionado na mesa de cabeceira e saúdo o nosso projecto: o primeiro de muitos.

Acima de tudo, Francisco, meu querido, obrigada, obrigada pela tua fé, pelo teu desafio.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Seis meses de faz-de-conta

A minha intenção não foi ser complicada. Queria as coisas como elas eram simplesmente, sem grandes histórias de amor ou heróis devassados pela fúria. Para mim, as coisas deviam ser só as coisas, porque geralmente isso é já suficiente para fazer o meu estômago doer menos. Passámos seis meses a brincar ao faz de conta, inventámos missões incríveis pelo espaço, a estrada pareceu estender-se sempre mais quilómetros quando viajámos de carro. Eu não estava à espera que aparecesses, muito menos que fizesses tanto barulho: eu tinha o quarto arrumado e os sapatos guardados dentro de caixas. Vieste tu, desarranjar as coisas simples da minha vida. A minha intenção não foi ser complicada, mas tu sabes como é, conheces-me desde que era uma criança: complico tudo! A tua mão, que poderia ser só a tua mão, é o consolo último que encontro antes da solidão. Se eu pudesse sufocar a tua mão, talvez o fizesse sem hesitar. É só porque sou complicada e nunca entendo muito bem os gestos com que me saúdas. Ás vezes és um estranho como outro qualquer, e isso torna-me simples perto de ti: não tenho medo de acariciar as tuas costas com as minhas unhas, muito menos tenho medo de saber que sou tua companheira, mesmo que não haja amor. O nosso amor é simples, é a consequência dos anos e da intimidade. Não é daqueles amores em que ficamos sem fôlego, não é um amor colossal, daqueles que nos fazem ser incompreensivelmente inocentes. É um amor simples e tosco que desconhece os trilhos do corpo, é um amor tosco de conversar sobre as coisas que não querem dizer nada, é um amor tosco de trocar beijos debaixo da mesa para ninguém ver. É um amor que não é maior que nada, nem me faz tremer, nem querer morrer que quero sempre quando as coisas se complicam. É só um amorzinho, um amorzinho tolo que martela, martela, martela no peito até não poder mais. É só um amorzinho afinal, um amorzinho de crianças que quando tinham quinze anos esperavam tudo dos outros e de si mesmas. Eu não quero morrer por ti, não quero sofrer pelo desamor, não quero amuar porque não olhas para mim ou porque não me encontras nos corredores. Afinal o meu amor é pequenino e simples, é só um amor que vem do tempo, dos anos, dos seis meses em que brincámos ao faz de conta.
Desculpa, desculpa se complico tudo.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Remorsos pós-destruição

Ter o coração na boca nem sempre é bom. Viva o silêncio. Obrigada!

Destruição das técnicas

Amo-te.

Técnicas para resistir aos olhos

Tenho de te dizer: não vale a pena romancear, ambos sabemos quais foram os motivos que nos trouxeram até aqui!

Técnicas para resistir ao desamor

Tenho de te dizer: hoje não, hoje não vou contigo!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

A menstruação


Olha, sabes quantas vezes me deitei sem boxers para poupar dinheiro na conta da àgua? Sabes quantas vezes não pus a máquina a lavar e trouxe comigo a mesma roupa suada e ensanguentada pela tua menstruação? Imaginas a quantidade de vezes que fiquei petrificado na rua à espera, sempre à espera de te ver chegar? Chovia sempre e nem as tempestades me demoviam da espera. Fazes ideia dos litros de vinho em que consporquei o meu fígado só para poder imaginar-te dançar? Não vivi durante oito anos porque sabia que acabarias por pegar nas armas e desaparecer. Amo-te como se ama a merda e não vale a pena ficares atordoada perante esta visão porque o meu amor é assim mesmo: visceral. Um intestino ou a luz das manhãs valem a mesma coisa e isso não tem nada de assustador. É simplesmente a consequência das minhas insónias acumuladas. Se o amor fosse um lugar-comum seria uma sajeta. Nunca tive nojos na vida. A carne pendurada no talho não me arrepia a espinha e quase sempre tenho a sensação de ser imune às doenças que causam asco. As minhas, não as recuso, são doenças da carne, sim da carne, mas que não se materializam em feridas abertas e torrentes de sangue. Dói-me aqui, no lugar que também foi a minha virgindade, no lugar onde reencontro os teus passos entrecortados e a vida presa por um cabo de aço. Não que isso a torne estável. O cabo de aço acabará por ceder como o meu estômago, como o meu cérebro e essa é a única certeza que me acompanha enquanto caminho para o desmembramento do corpo, para a angústia hipocondríaca da morte. Lambia os dedos se houvesse um açucareiro à mão, espetálos-ia no açucar e sugaria o doce pestilento que se mistura com o acre dos meus dedos. O limite entre querer morrer e a morte é mais ténue que a prostração que a solidão imprime nos músculos. Estar só é um acontecimento infeliz que nos permite uma certa acomodação, às vezes prazerosa. A vontade de morrer e a concretização dos desejos dissimula todas as acções vindouras a partir do instante da decisão. Se eu desejar morrer, agora mesmo, impelido pelo egoísmo mais atroz do mundo, poderia fazê-lo sem perigo de retaliações. Por outro lado, se decidir prostar-me só para a vida toda que se avizinha, o mais provável é que acorde com a casa coberta de ovos podres e três ou quatro crianças entoando jogos mórbidos acerca do menino que ficou perdido na floresta.
As urgências do Francisco

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Marcha fúnebre

Não conheço este lugar. Não conheço este lugar onde não há medo. Não ter medo é assustador. Não é este o lugar onde me materializo. O meu corpo está desfasado do espaço, eu estou desfasada do tempo. Nem sei ao certo quando aconteceram todas as coisas que me deixaram de luto. Parecem meses, anos e foi tudo ontem. Foi apenas ontem que vivi todas as coisas que constroem a minha memória funerária. Não me pertenço em nada daquilo que são os meus gestos e os lábios conduzem-me geralmente a palavras que não são as da minha boca. Fico à espera das horas em que o alívio me conduz ao prazer de continuar viva perante a catástrofe. Não há nada de trágico nesta procura, são só inspirações para o devaneio artístico. Não há nada a fazer em relação à minha tristeza: ela não é complexa nem fruto de uma miséria insuportável. E talvez se assim fosse, qualquer explicação seria mais racional do que este caminhar lento para a inércia. É preciso trabalhar, fazer as coisas. Nada mais há a fazer quando deixamos de nos reconhecer.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A invenção das portas e outros problemas

A minha casa, apesar de tudo, não tem portas. É uma casa sem portas e com duas varandas corridas que dão para o Tejo, muito embora o Tejo esteja a três quilómetros de distância. A minha casa é um sítio inventado onde há um parede totalmente preenchida por livros que eu ainda não li e os outros, já lidos, estão guardados na pequena arrecadação nada sombria, ao contrário das arrecadações vulgares. A minha casa costumava estar cheia de pessoas, que bastava serem pessoas para poderem estar na minha casa. Ás vezes não eram amigos, não eram amantes, nem o pai e a mãe, a irmã e a restante família alargada. Eram só pessoas que entravam na minha casa ampla que não tinha uma única cadeira e se sentavam para lá falando das coisas que geralmente as pessoas falam. Era só uma casa a minha casa; era só uma casa. E lá dentro havia lençóis engomados e roupa lavada e fresca. Havia às vezes muita luz quando se abriam as janelas e essa luz era o encontro das palavras fecundas. A minha casa que era só uma casa era estruturada e mesmo quando havia ventania lá fora, os pilares não cediam nem sequer tínhamos medo. Muitas vezes havia vinho no chão e alguns cigarros apagados em cinzeiros improvisados. Isto porque a minha casa tinha sempre muitas pessoas que eram só pessoas dispostas a trocar palavras fecundas enquanto se sentavam no chão da sala. Um dia, quando puseram portas na minha casa, as pessoas morreram todas. Não havia pessoas, nem amigos, nem amantes, nem pai e mãe, irmã e família alargada. Quando a minha casa nasceu de novo com portas restou uma única criatura no mundo, que ainda hoje não sei bem se era pessoa ou se era só criatura. Talvez tenha sido essa estranheza o motivo pelo qual esse ele permaneceu vivo para além de todos os outros seres e de mim mesma. Talvez tenha sido essa estranheza que o conduzira à única casa com portas cujas varandas abraçavam o Tejo longínquo. Essa criatura era, ainda que sendo ou não pessoa, um homem cujo nome ainda hoje desconheço. O homem que me invadiu a casa e os lençóis engomados. Com ele, as conversas não eram fecundas. Talvez fosse o amor. O amor fecundo que gera, na maioria das vezes, outras criaturas com características quase semelhantes àquelas que têm os que as geram. Mas mais uma vez, nem essa era a fertilidade que fazia o homem entrar na minha casa. Os cabelos dele cheiravam a areia e sol. É muito provavelmente a recordação mais nítida que retenho na minha cabeça. Areia e sol. Talvez esse não fosse o melhor cheiro do mundo, mas era o cheiro daquela criatura única que permanecia viva no planeta para além de mim. Não estou certa do motivo que nos uniu, muito menos certa das razões que levaram à nossa sobrevivência após a calamidade das portas. A verdade é que muitos pássaros ficaram vivos, nos museus a arte não derreteu e todas as grandes superfícies tinham prateleiras cheias. Agora quanto ao facto de estarmos vivos e ainda por cima vivos na minha casa que outrora fora um porto de gente, não tenho qualquer justificação. Parece-me que aquela coisa a que chamamos fé tenha sido a única razão, racional entenda-se, para a sucessão de acontecimentos tão bizarros. Um dia quando acordei na minha casa com portas a criatura tinhas as mãos ensanguentadas e desenhava na parede memórias daquilo que devia ter sido a sua infância. A ironia daquela visão entristeceu-me. Um homem partia das suas vísceras para reescrever um passado inóspito. E ainda assim, invadia todos os compartimentos com o mesmo cheiro de areia e de sol. Mesmo agora que o homem já não está em minha casa, é esse o cheiro que está impregnado nas paredes. O homem já não está na minha casa porque morreu. Matei-o, sim a verdade é essa. Matei-o com as duas mãos e um bocadinho de fita cola que guardava dentro do armário da cozinha para emergências. Mas isso foi depois de muitos anos, não sei ao certo quantos, porque um dia eu e o homem decidimos não sair da casa que era minha e, estranhamente, agora era também dele. Para ali ficaríamos prostrados: ele diante das paredes abrindo todos os dias mais uma veia par poder terminar o seu mural; eu sentada diante da visão irónica que era aquele desmembramento. Acabámos por criar alguma intimidade neste jogo. Nem sempre dormíamos. Raras eram as vezes em que comíamos. Até porque, como tínhamos decidido por maioria, não voltar a sair daquela mesma casa, tínhamos de ser poupados. Não conversávamos. Talvez não houvesse assunto, continuo na dúvida... Um dia quando acordei, o sangue dele tinha acabado e por esse motivo, calculo, tinha parado de desenhar a parede. A obra de arte estava em fim terminada. Então, quando me viu sem nada para observar ao fim de tantos anos naquela mesma ciranda, ouvi-lhe a voz pela primeira vez: "Era bom se nos pudesses deitar juntos". Foi então que o matei. Matei-o. Porque antes de todas as outras pessoas que eram só pessoas terem morrido todas, já eu me tinha deitado com muitos homens e sabia bem como era mentira que assim se construía uma intimidade. Sem nunca conhecer a criatura com quem vivi mais de metade da minha vida, consegui amá-la mais do que a qualquer homem que se tenha deitado comigo. Então, como não queria romper o compromisso que tinha estabelecido com aquele homem e com a sua fé, matei-o com as mãos e os restos de fita-cola que deixava guardada na gaveta da cozinha para casos de emergência. Matei-o e não houve grande problema, porque na verdade não havia pessoas vivas que me pudessem punir. A solidão era agora a única realidade plausível. Estava sozinha no mundo e na casa, mas pelo menos tinha vista para o Tejo. Passei o resto da vida que me sobrou a observar o mural da infância do homem e descobri que a intimidade é a circunstância mais dolorosa dos seres humanos. Para disfarçar a solidão que sempre fora uma temática assustadora na minha perspectiva de pessoa, passei também eu a desenhar na parede. Com o meu sangue desenhei todas as pessoas que estiveram na minha casa e quando finalmente decidi desenhar o homem o meu sangue tinha secado. Seca. Estava seca para desenhar o único homem com quem tinha partilhado a intimidade dos anos. Então, com o último pedaço de fita-cola que sobrara do meu primeiro crime, atei as duas mãos, sentei-me na varanda corrida e fiquei à espera da morte.

sábado, 22 de novembro de 2008

Os inevitáveis encontros de Maria e José: o corpo desumano do amor

-J: M tens o corpo dilacerado pela brutalidade do trabalho: negrume fundo nos apoios, traços de sangue nos pés e umas unhas cravadas em rasgão bruto em cada uma das omoplatas. O teu corpo está consumido pelas dores de quem não pode parar, pelas dores de quem vê no trabalho árduo a única emergente saída para a solidão. M, porque cobres tu o corpo todo com trapos pretos? Essas são as tuas angustias transformadas em carne cortada. É a minha tese. A minha tese sobre a tua tristeza. Quando te encontrei, os teus olhos denunciaram a morte acumulada dentro das tuas mãos e dentro do resto das coisas que permanecem estanques e seguras no teu corpo. Não esperavas ver-me? A verdade M, é que não te amo. A verdade é essa. Mas não sei que coisa amarga é essa que sempre trazes contigo que me vicia. Deixa-me tirar-te a roupa, descobrir as tuas dores.

Silêncio

M...? M...? Deus roubou-te as asas e as tuas costas sangram como rios. Deus roubou-te as asas e só por isso posso ficar a olhar-te durante horas, fazendo dançar os meus dedos sobre os rios trilhados pelo vermelho que te marca a pele virgem. As minhas mãos côncavas vão aninhar-te as feridas. Foi um homem, fui eu quem te traçou a pele? Fui eu que violentamente conduzi as minhas mãos contra o teu corpo, esperando quem sabe que alguma coisa ficasse da dor? Podia matar-te agora que nenhum de nós saberia porquê nem como se chega a um acto tão bruto. Podia matar-te, esmagar-te contra uma parede e ninguem saberia que ousámos cometer o crime do amor. Penso tantas vezes na morte, pequeno anjo. Imagino um corpo, sufocado debaixo de quilos infinitos de terra. Não existe ar, nem nada que possa alimentar a corrente das veias. Imagino o teu corpo suterrado e as tuas asas minusculas partidas junto das ossadas dos antepassados queridos. Não me interpretes mal, M. Esta é a única forma de amor que me mostraram: é esta a única visão sanguinária que tenho de um coração inflamado. Mas onde fica o meu corpo se morreres? Qual é o lugar, M? Perpetuaria, se pudesse, aquele segundo em que adormecemos no sofá. Cheiravas a banho acabado de tomar e os teus cabelos pingavam no meu peito. A luz que atravessava as janelas era quase efémera, quase nada. Ficamos embalados pelo tinir do vento e das tábuas centenárias e eu desejei mais uma vez matar-te... Agora morrer contigo. Matar-te e morrer no instante da acção, sem dissolução, sem mistério. Só para poder perpetuar aquele instante em que adormecemos no sofá. Porque essa paz, essa fé no amor, não a consigo encontrar em mais lugar nenhum.

És a minha casa M.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Os tios e as Marias...


Estreamos ontem...

Hoje não reconheço em mim as sensações desse dia. A expectativa passou e aquele senhor tolo e atento que cheirava a vinho quase aniquilou o momento em que o delírio é maior que a realidade. Estreamos ontem e chegam agora dias em que seremos aquelas pessoas e depois as pessoas que somos quando as luzes caem.
Encontros e desencontros no campo com o Tio Vânia, Teatro da Trindade
29 de Out a 16 de Nov, Qua a Sab 22h, Dom 17h


Eles também estrearam ontem...
Corri para o teatro onde a visão do castelo é quase tão fantástica como a lua. Eles têm uma odisseia pela frente e sorriam como pássaros quando os encontrei na varanda onde fumamos cigarros. A noite estava gelada mas havia vinho, depois do vinho, finalmente o delírio.

António e Maria, Odisseia Cabisbaixa, Teatro da Garagem

29 de Out a 30 de Nov, Qua a Dom 21h 30



Estou apaixonada pelo teatro à falta de paixões outras...

Feliz...?

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Mensagem recebida às 05h47m: "Preciso de falar contigo..."

Identifico um problema com a comunicação contemporânea: as conversas importantes são tidas via sms ou telefonicamente. Não haveria grande perigo nesta instauração se não existissem mal entendidos. O grande problema é o seguinte: a nossa incapacidade para verbalizar a verdade perante situações adversas deveria diminuir com o uso de mecanismos automáticos de conversação. Mas mesmo atrás deste perfeito subterfúgio ou mecanismo de segurança, conseguimos criar discursos tão extraodinárimente confusos que geramos uma problemática ramificada: não só damos espaço para a existência de mal entendidos, como também protelamos a nossa incapacidade de tomar decisões em tempo real.
Mesmo assim, tenho de fazer um telefonema...

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

as novidades: os inevitáveis encontros de Maria e José

-J: Nunca disse que te podias apaixonar M, mesmo que assim o tenhas entendido... Nunca te disse... Nunca!

domingo, 12 de outubro de 2008

L.L.L.: A leveza da liberdade lisboeta

Viver em Lisboa é bem melhor do que viver nos suburbios. A rua cheira a gente. A calçada é escorregadia. Posso chegar a casa a horas indiscretas. Ando sozinha. Converso horas com o amigo Francisco que não encontrava há anos (anos?).
Os ensaios começam e sem dar conta chegam as memórias de uma temporada inesquecível lá para os lados da Graça. A temporada que agora se avizinha mostra-se já inesquecível também: muitas crianças, homens, mulheres, - quem sabe? - cheios de vontade de reconstruir uma história simples, desta vez para os lados da Trindade. Dez minutos a pé desde o Príncipe Real e o mundo é outro, é o mundo do faz de conta que sabe bem à alma.
A amiga Ana oferece a casa, a cama, o espaço a que é tão bom voltar quando a vida está numa volta estranha. A Ana é um pequeno anjo amigo que constrói com fósforos a casa mais estável onde poderia estar neste momento. A Ana é amiga da vida, para a vida. Uma vez aqui, o regresso torna-se difícil. Lisboa é a minha cidade de agora. Não quero outro sítio para estar. Não quero fazer outra coisa senão esta de cirandar entre teatros bafientos e casas amigas.
Vim procurar a felicidade na cosmopolita terra. Tenho de encontrá-la que a hora tarda. Tarda em chegar o momento da leveza...

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Três vezes um igual a zero (3 x 1 = 0): pequeno jogo de lógica sobre o amor



Todo o amor é mortal.
Eles são amor.
Logo, eles são mortais.

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AMOR COM AMOR SE PAGA.

domingo, 5 de outubro de 2008

o táxi: os inevitáveis encontros de Maria e José

-J: Não tenho carro, nunca aprendi sequer a conduzi-los. A constante embriaguez provocada pelo álcool e pelo amor tem sido um impedimento para a obtenção da minha independência locomotiva. Entendes, M? Ando a pé. Geralmente ando a pé. O rumo é quase sempre incerto. A luz branca do néon atrai-me; muitas vezes vou de encontro ao encontro dessa luz. Há homens surdos nesses sítios, homens surdos com headphones. Nunca consegui perceber o que ouvem eles. Tu sabes, M? Sabes que música é a música destes homens? Estão sempre sozinhos debaixo de um enorme foco branco e estou sempre a encontrá-los porque ando muito a pé. Não tenho carro. Não quero... Tens carro, M? Conduzes? Não gosto de carros. Não entendo como podem as pessoas fazer amor lá dentro; não entendo como podem duas pessoas que se amam amar-se dentro de um carro. Tu deves entender, não é M? Tu já fizeste muito amor, filhos lindos talvez. Já amaste muitos homens dentro de carros, mas nunca chegaste a entrar dentro das casas deles porque dentro das casas deles havia uma mulher e três ou quatro crianças famintas e fotografias de família tiradas em tardes de domingo. Fazias amor com eles nos seus carros e eles regressavam aos seus pedaços de normalidade. Não era assim, pequena virgem?
O meu conceito de amor foi destruído pela tua chegada. Tu não existes, és só a pequena invenção dos meus olhos de dentro. És só um pequeno delírio poético e eu não tenho mãos para amparar as tuas quedas porque tu não tens corpo. Criatura demasiado serena para morrer nos meus braços. Dentro de dois dias, não mais, vais encontrar-me sem roupa, pedaços amontoados numa rua suja da cidade. Vou dizer-te que não me sirvo e que não sirvo para ninguém. Vou negar-te as minhas sobras; que essas restem para as putas. Um dia até, querida M, querida virgem?, vou ser sugado pelo vento que jorra das bocas do metro e não voltarei a ser encontrado. Vou morrer dentro da boca do metro. Dois, três dias M, não mais. Agora, neste instante congelado em que te abraças a mim dentro de uma cabine telefónica vou pedir-te uma vez mais que venhas comigo. Vens, M? Vou pedir-te que me resgates da morte certa que não quero morrer já. Não sei viver porém. Mas tu, M, tu sabes como são essas coisas da vida. Tenho a certeza que já viste muitos países e que já alguém quis casar contigo. Ficavas linda com o vestido branco decotado, cabelo apanhado com pérolas.
Chegaste até mim como vento de norte; estou certo que vieste resgatar-me da morte. Vou afundar as minhas vísceras, o meu fígado em toneladas de vinho fermentado para ficar à espera do fim com menos dores. Não é no coração que me dói, é cá dentro naquilo que deve ser o meu útero, a minha fertilidade. M, pequena virgem, tu és o amor. Que o amor me salve desta podridão para a qual caminho todas as noites. Vem comigo M. Eu não sou como esses homens que te desventraram as pernas. A minha casa está só: não há nela histórias de outras mulheres, embriões nem cartas de amor desesperadas. Nunca nenhuma mulher entrou no meu quarto. Tu M, nunca entraste no quarto de nenhum homem. TÁXI... TÁXI! Rua 3, nº7, terceira varanda à direita. Vem M, vem povoar o meu asilo de memórias.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

de querer muito alguém, de não saber do amor ou a falta de credibilidade poética: os inevitáveis encontros de Maria e José

-J: Prometo M... Prometo...

o segredo do pássaro M: os inevitáveis encontros de Maria e José

-M: Uma vez encontrei-te J. Encontrei-te junto a uma parede suada. A sombra das tuas mãos desenhava um enorme pássaro no horizonte. O pássaro ficou preso nos teus dedos cansados, J. Sou eu, M, esse pássaro. Se ficar por aí engaiolada nas tuas mãos, terás de dançar comigo sempre que a solidão me atacar, se decidires soltar-me terás de ser tão firme como a parede que delineia a nossa sombra: não pode restar nada, que asas partidas nunca fizeram bem a nínguem.